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  • Karina Buhr. Abril Pro Rock 2011 // Video. Bateu Castelo


Cidade Irresoluta, na voz de Lady Laet
José Luiz Passos
Cover Photo. Fora do Eixo (CC BY-SA 2.0)

 

O tempo das grandes canções já tinha passado. Aos treze, Neide bebia café, fumava e sentia que era profunda na escadaria da praça Ramos. Mortensen não era o seu pai. As colegas também lhe diziam que “ele” era para ser o seu pai, mas não era. Mortensen era o pai de Marilyn Monroe. Uma vez, Neide mostrou à mãe a foto de um senhor alto e magro, de terno cinza, bigode fino, e perguntou: “É este?” O homem parecia Clark Gable, mas elas sabiam que a foto não era de nenhum ator. Aquele era mesmo Mortensen, o pai de Marilyn.

No registro do condado de Los Angeles, a mãe da futura atriz americana batizou a filha com o nome de solteira, Baker. Marilyn jamais admitiu a paternidade de Mortensen. Neide provavelmente apanhou esse detalhe da própria mãe, Micas, que lia na cama vidas de cantoras e atrizes, até que a menina pegasse no sono. Durante sua infância, circulava nos aniversários e festas em família uma história parecida, sobre o pai dela e o de Marilyn, às vezes contada por Micas, e outras, pelas próprias amigas da menina.

Quase todas as grande cantoras do rádio nos ensinam a mesma lição. Dirce di Falco, a ídolo de Neide, cujo modelo foram estrelas da Kosmos e da Excelsior, costumava se deixar fotografar apenas de olhos fechados, queixo erguido e boca entreaberta frente a um microfone Zenith de quatro hastes, em forma de diamante. É fato que, na sua melhor fase, a estupenda Neide moldava sua imagem a dedo, escolhendo o ângulo das fotos, um repertório às antigas, os escândalos que ela própria confirmava nas páginas de Sétimo Céu. E muito embora Neide nem sempre tenha sido uma diva fixada nos ritos do sucesso, houve uma época em que se alçou a outro nível e exibiu seu talento na companhia de quem, sem dúvida, havia chegado lá. Todos ouvimos falar no que os artistas costumam chamar de momento, quando eles, tomados pelo desejo de ir além, reinventam quem são. O momento de Neide não foi propriamente um desses; foi, sem dúvida, de brilho intenso, mas de quilate muitíssimo outro.

Disse um crítico paulistano a respeito da jovem: “Quem começa magrinha, polindo-se em coro protestante, jamais vai abocanhar um país cuja carne é o carnaval”. Antes de chegar à adolescência, ela às vezes era chamada, em família, na Vila Maria Zélia, de menina esquisita; certamente, pelos cabelos cor de ferro em volta dum rostinho pálido, de óculos largos, os cachos despenteados, as pernas finas. “Cambitos”, Micas lhe dizia. “Coma, minha filha.”

Neide cresceu comendo o que um salário de balconista no Mappin deixasse a mãe comprar. Quem dobre à esquina da avenida Nove de Julho, rumo à praça leste, e cruze por baixo da longa marquise de concreto, vai encontrar, no balcão ao centro do piso térreo, dentro da loja, a ilha com espelhos e frascos ao redor de uma mulher trajando tailleur cinza e blusa de gola verde. É Micas, a mãe de Neide. O estande de maquiagem dava amostras de sombra, rouge e batom; recém-lotada no setor, aplicando de cortesia os tons da estação, Micas reinava das 9h às 18h num pequeno oásis com promessas de autoestima: “Leve, querida. Começa por aí o caminho do sucesso...” e, nisto, ela não enganava ninguém. Micas tinha vindo grávida de Salvador para São Paulo. Neide nasceu na semana prevista, a trigésima-nona, de parto natural na maternidade do Hospital das Clínicas. Na época, Matt Bo Grady já era um tipo mítico. Foi, sem dúvida, o ídolo daquela mãe no ano da barriga. Mas há duas espécies de iluminados, os de onda e os de gênio. E os que ora se moldam pelos seus ícones – gente querendo ser igual aos artistas, meninos copiando o penteado dos craques, moças posando para o refletor dum espelhinho – explicam-se uns pelos outros; são frutos do mesmo fenômeno. Querem imitar as estrelas. Quando os olhos pousam na grandeza, as mãos buscam fazer uma cópia. É natural. Micas vestia a filha com modelitos da fase limpa de Matt Bo Grady, muito embora este não tenha passado, aos olhos da crítica atenta, de um imitador menor de Elvis. Aqui, seguia um longo rol, pois já são muitos os duplos do Rei. Mesmo assim, o tal Bo Grady tirou do peito da mãe de Neide – passe a rima – pancadas fortes e, com elas, lágrimas amassadas num lenço rendado, coleção Mappin. E tamanho gesto deveu-se, apenas, à balada do famoso compacto homônimo Never Your Love Again.

Afinal, vingou o esforço Mappin da mãe, a verve do coro na igreja batista, o molde do pop tosco em Matt Bo Grady; são esses os verdadeiros elementos da inconfundível voz de Neide Laet. Mas foi Cidade Irresoluta – o maior hit de sua carreira – que lhe rendeu o título de “Lady”, naquela matéria consagradora da Manchete: “Musa e Bandeirante”, a publicação carioca anunciava. Ora, em fevereiro Los Angeles se parece, ainda mais, com o mês de junho em São Paulo. Lady Laet se preparava para vir à Califórnia gravar seu primeiro CD, quando o famoso crime do Itaim tirou-a de uma rota que, para muitos, já parecia escandalosa demais. Passado tanto tempo, muitos se esqueceram dos fanzines daquele ano. Num aceno a outras épocas, o CD se chamaria Lady Canta São Paulo. Então, no lado A, faixa 2, cidade irresoluta por quê? Lembremos o que “irresoluto” pode querer dizer, nas palavras do próprio hit: é o que ainda não foi resolvido, aberto, prestes a, ansiado, solúvel apenas no fim, estado pendente, na ponta da língua, limbo, eterna espera, retardo que aguça a urgência, bem como, é claro, no vulgo, cruel cemitério dos corações. Eis o irresoluto dessa cidade.

Aí está o bairro de Neide, a Vila Maria Zélia, com a casa dos batistas posta diante da capela de São José. Seu hábito de erguer a voz do mais grave ao brilho do agudo – estilhaçando uma sílaba de palpitar, barbas ou arranha-céu – vem do apreço pelo gospel e da imagem de uma garota Marilyn, malcomportada. Na sua viagem a Los Angeles ela beijaria, como eu próprio beijei, a lápide da loura Monroe no Westwood Village Memorial Park Cemetery? Parece-me que sim. Neide sempre acreditou que ambas eram filhas do mesmo pai. Mas não houve tempo para tanto; vox, vanitas et finis. Como diz a canção recente, “depois de tanto verbo, a pessoa morre”. Matamos Lady Laet, a nossa mais perfeita intérprete. Ou melhor, a ser justo com a estrela, não há dúvida de que ela própria quis consumir-se, só e exclusivamente, apenas aí, nas grandes vilas e subúrbios de São Paulo.