Editorial

  •  El transcurso de la vida, Alejandra España. Tinta sobre papel, 2006.  

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Este número de Párrafo reúne textos e imagens que nos oferecem distintas perspectivas sobre os animais. Olhares diversos que buscam outras formas de habitar o mundo e nos apresentam os bichos como parte de uma cenografia cotidiana, como prisioneiros, seres agonizantes ou companheiros fieis; olhares que, enfim, atribuem aos animais nossa própria natureza, aspirações e fraquezas.

A zoologia fortuita que se encontra nessas páginas é também uma mostra dessa diversidade. Este Párrafo fala de leões e perenquenques requintados, de lebres e cavalos com asas, de louva-a-deus religiosos e peixes voadores, de piolhos e sereias. De cachorros, pelicanos, corvos, abelhas, caracóis, elefantes, ursos, tlacuaches, tartarugas, orangotangos, gatos, moscas, galgos afegãos, estorninhos, lobos, micos, cervos, burros, corujas, jaguares, ratos, hipopótamos, lhamas, galinhas, formigas, vacas e salamandras.

O que confere unidade a esta maravilhosa fauna é a tentativa de recuperar um gesto: em 1911, Kafka visitou o aquário de Berlim, deteve-se em frente ao tanque iluminado dos peixes e, sem que ninguém o escutasse, disse-lhes: “Agora, já posso olhá-los sem sentir vergonha”. Olhar em paz, com dignidade, sem afetação ou sentimentalismos. Isto foi o que tentamos neste número. Entretanto, ainda nos perguntamos se a arte e a escritura são mesmo capazes de reproduzir esse olhar. Não haveria sempre um resíduo de vergonha em toda pretensão de representar o animal?