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MARIA AO
MOLHO PARDO

Diego de Jesús

Maria passou a faca no pescoço da galinha com raiva e um jato de sangue respingou em sua saia. Ao perceber a mancha vermelha, Maria girou o pescoço da pobre com um ódio que me deu nó na garganta. Usou uma vasilha velha de margarina para coletar o sangue ainda quente do bicho, que se debatia.
Maria me observava enquanto fazia aquilo, acocorada no meio do quintal, com cara de satisfação. Eu conseguia ler nos olhos dela as palavras que ela nunca dizia: quanto mais pena se sente, mais o bicho custa a morrer. Na cozinha, Maria mistura duas cebolas inteiras, um tomate, quatro dentes de alho e grandes porções de desprezo. Na receita de Maria, eu sou o único ingrediente que ela não digere, simplesmente porque não quer.
A habilidade de Maria para matar galinhas me faz tremer toda vez que a flagro andando pelo terreiro da casa com uma faca em punho. Nessas horas, Maria costuma caminhar lentamente, enquanto as galinhas se despedaçam ao procurar buracos no arame farpado das cercas de madeira. Minutos após o ritual de caça, ela decapita, escalda, mutila e cozinha a galinha em seu próprio sangue. Maria tem cheiro, gosto e cor de molho pardo.
A galinha do almoço de hoje me deu indigestão. Talvez por eu ter comido Maria logo depois, com outros dentes. Mas enquanto o meu estômago revira, Maria devora os miúdos da galinha com pirão. Não trocou a saia suja de sangue, sequer tirou os pedaços de penas grudados no pescoço suado. Ela rói os ossos e os abandona sem forma no canto do prato, cuspindo um por um.
Eu ainda fujo desse fim de mundo no meio da noite e levo todas as galinhas comigo, menos Maria.