Parrafo magazine

Heloisa Andrade

Caminhei para capturar a imagem. Passei por pessoas, salas, corredores, portarias, olhei os murais e cheguei até ao jardim. Lembrei-me: “há um ano atravesso esse jardim sem ter me dado conta que estava ali uma escultura”. “Como assim?” Indago-me. “Passei mesmo por aqui?”. Fiquei com dúvida. “Como é não ver? O que levou está dispersão do olhar?”. Procurei fazer uma retrospectiva: mudança de cidade, moradia, aulas, textos, livros, conceitos, metodologias, teorias, aprendizagens, projeto de pesquisa, reuniões, apagamento e mal estar. “Socorro!”. Grito: “preciso de terapia”.

“Ufa!” Um alivio. Fui acionada. Por quem? Por um dispositivo. Que dispositivo? O da docência, ora! Mas não qualquer docência, mas aquela nomeada e registrada em minha matricula institucional de Narrativa Politicas de NarratiVIDAde de Escrita e Outra Acadêmica. Um dispositivo de força. Ensinou-me a desestabilizar a predominância de um único sentido na política da escrita. Apresentou a possibilidade da busca da leveza poética na produção da escrita. Enfatizou a literatura, não só como terreno existencial, mas sua potência na composição da escrita. Apresentou o sentido cientifico como ponto de partida, mas sempre revestido por invólucro imaginoso, afetivo de vozes dialogantes. Fortaleceu-me com um enredo guiado para enfrentar e contornar a cena do crime, não como morte, mas como violência. Com isso, auxiliou-me a expurgar o mal estar e o apagamento. Criou alertas sobre os efeitos mandatórios do “qualis” no governo das publicações contemporâneas.

Mas afinal, qual é a narrativa produzida pela imagem capturada pela câmara do smartfone? O que ela me interpelou? O tão quanto estou implicada nesta produção de imagem? A força desta escultura está na justaposição dos dispositivos, que nos interpela, para a dimensão de um processo, “o trabalho de si sobre si”, uma imagem carregada de significado. Uma escultura nomeada por mim, de labor intenso, cuja composição trata-se de uma enxada, um lápis e uma página aberta a espera que, seja impressa ali, um outro modo de pensar e formular a escrita. Uma escrita, a qual, timidamente, tentei inaugurar na direção da materialidade da narrativa política da narratiVIDAde.

Heloisa Andrade

Heloisa Lopes Silva de Andrade, é doutoranda na linha de pesquisa: Currículos, Culturas e Diferença, no Programa de Pós Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social, na Universidade Federal de Minas Gerais com Projeto de tese, A Construção da Subjetividde Infantil na Cibercultura.  É professora assistente da Universidade Estadual da BahiaL-UNEB- Trabalha com a disciplina Educação e Pesquisa e Trabalho de Conclusão de Curso.