Parrafo magazine

TESTEMUNHO

Autor do fato: GÊ VASCONCELOS

Muito calor, o vento não dá conta. Meu corpo parece que tá dilatado. Ficar em casa não vai dar certo. Posso chegar na praia em 30 min no 483, Carlos e Caíque confirmaram. Levando o haxixe pra fumar com os manos. Esses tempos estão difíceis de energia pesada. A Aline passando por tudo isso. Trabalho escasso. Acho melhor partir de uma vez pra lavar os problemas na água salgada e jogar os pensamentos no vento. O ônibus tá cheio. Esta- mos na metade da primavera. A praia tá lotada todo dia.

Me considero gordinho, então não são todos os momentos que me sinto à vontade sem camisa, então vou de regata. A Pentax tá comigo pra fazer minhas anotações de luz.

Nem sinto a viagem. Trânsito bom. Vou descer no próximo ponto, o ônibus tá cheio, estou de pé. A praia tá perto. Vamos ficar no Leme dessa vez. Depois de passar o túnel é só descer. Vai engar- rafando no meio do túnel até o final. Blitz. Mandam parar o ônibus. O policial sobe no ônibus e olha pra cada pessoa.


Policiais pela janela do banco alto bem na minha frente

<<<<<< composição >>>>>

Primeiro plano: interior do ônibus, dois passageiros no banco alto.
Segundo plano: policiais na rua ao lado do ônibus olhando pra as janelas (logo, na direção da câmera).
Terceiro plano: viatura estacionada.


Dois momentos:

Tenente pisando na escada pra subir no ônibus. Passo pro lado pra ficar frontal à cena.

Primeiro plano: muita gente no box em frente a porta, prestes a abrir no primeiro momento e aberta no segundo.

Segundo plano: tenente abre espaço pra entrar no onibus


O Tenente parece fazer uma triagem visual e passa por mim. Decidi tirar a câmera da capa. Preciso fotografar. Já acon- teceram duas imagens, não to aguentando me omitir.


Enquadramento com o ponto de fuga à direita fazendo levemente um grafismo pelas hastes de apoio. Tenente à esquerda entrando em quadro. Vários passageiros de pé. Um menino negro no meio da imagem. Tô mais preocupado em ser discreto do que acertar a foto. Tenho que me equilibrar.


Uma menina me aponta chamando a atenção do Tenente que me encara de forma agressiva e me manda descer do ônibus. Saio e fico alguns segundos o aguardando. Chega tentando intimidar verbal- mente e manda colocar as mãos no ônibus pra me revistar. Me pergunta se já tenho passagem e respondo que sim.

Que merda! Sequelei. A maconha não tá nada dichavada dentro da bolsa. Dava pra dispensar nesse tempo antes de me revistar. O beck, caprichosamente guardado no potinho de filme 35mm, é descoberto e o cana fica repetindo ironicamente a pergunta: Quer dizer que tu é fotografo? Ele me conduz até a viatura e fico ali sentado vendo as coisas se movimentarem.


Ônibus à esquerda, tomando por volta de 30% do quadro. Parte dele serve de fundo.

Em primeiro plano um menino dialoga com os canas, enquanto outro é revistado. Viatura ao fundo. Horizonte interrompido por um edifício.


Tô vacilando. A fotometria tá pro ônibus de ontem a noite.


Composição parecida com a anterior. Somente os personagens se movimentaram. E dessa vez vai sair. Tô deixando um pouco mais exposto do que a indicação do fotômetro, não confio nele. Gosto do branco no limite também. Os meninos estão sendo revis- tados no ônibus que continua do lado esquerdo. O Tenente conversa com um Sargento.

Dá pra analisar essa foto pela regra dos terços. Na linha da direita, em primeiro plano, tem os dois policiais, com parte do rosto do Tenente à mostra no encontro da linha esquerda com a superior, e os meninos sendo revistados por mais dois policiais na linha da esquerda no segundo plano.


Me ajeito no banco pra conseguir pegar os policiais com a galera sentada no chão.


Outra foto parecida pra tentar uma leitura melhor do que tá rolando.


O Tenente abre a porta e diz que está no direito de também fazer uma foto minha com seu iPhone. Parece que ele me viu fazendo um dos cliques de dentro da viatura e se irritou.

Um rapaz é colocado sentado ao meu lado e na sequência o Tenente traz as algemas. Eu pergunto se aquele objeto era necessário. "É pra você não correr!". O sentimento que me atravessa é muito forte. Eu olho pro meu pulso algemado.


Não tem nem o que pensar, só clicar. Ajeito rápido a fotometria. Parece ser a vez mais difícil que faço isso. Tô com um filme ASA 200. Acabei de clicar pra luz alta e só tenho uma mão pra operar a câmera. Vou manter 1/125 e F/2.8. Garanto que não vai tremer. E vai dar destaque pra refração de luz no metal. Assunto no centro com o restante do quadro desfocado. Não tenho muita opção pela mão presa e a lente normal no ambiente fechado e pequeno. O mano tá com uma munhequeira do Brasil, e eu, com a minha pulseira que comprei da Lira, futura mestra artesã Huni Kui.


Não acredito no que tá acontecendo. Vou avisar pros moleques. Posso ir a julgamento dessa vez, mas deixa rolar.

Caíque, tô aqui na Princesa Isabel, saída do túnel, dentro da viatura. Rodei na blitz que tão fazendo nos ônibus. Ainda não sei pra qual delegacia eu vou. Te ligo de novo jájá. Coé Carlin, rodei aqui na dura do ônibus. Tô na viatura esperando o policial que vai dirigindo. Na Princesa Isabel, saída do túnel.

O policial senta no banco do motorista. Telefone tá tocando. É o Caiquente. Fala mano. Já tô a caminho da delegacia. Policial, onde fica a delegacia que nós vamos? Onde é a 12a? Na Hilário de Gouveia com Barata Ribeiro, Quente. Tenho que avisar o Carlinho também. Coé, tô indo pra delegacia que fica na Hilário de Gouveia com a Barata Ribeiro. É perto da Siqueira Campos. Também perto de onde era a Baratos da Ribeiro. Valeu.

Tiram as algemas antes de descer do carro. Entro na delegacia. Um policial civil se aproxima: De quem é a droga?. Me orientam a aguardar junto do rapaz que estava algemado comigo na área lateral da delegacia, apelidado rapidamente de Açougueiro, porque tava com uma faca na bolsa. Abro o blindex. Carlin se aproxima. Vou ter que aguardar aqui pra fazerem os procedimen- tos. Um cana interpela o Carlin que tá com uma quentinha com quibes pra comermos na praia.

O Açougueiro pede a quentinha. Carlin deixa com ele. Ele vem feliz com a comida e abre pra comermos. Sai outro rapaz de dentro do prédio. Também come junto. Dois policiais evidentemente nova- tos ficam próximos observando o que está acontecendo. Um deles vem caminhando: Você mora na rua?. Mexo a cabeça nega- tivamente. Fico olhando pra ele e ele olha pro celular. “Como você mora na rua e tem uma câmera?”. Eu não moro na rua.

Nada acontece. Tô um pouco tenso com a situação e a câmera tá aqui atrás do meu braço esquerdo. Um camburão entra de ré no prédio. Não consigo fazer o movimento pra pegar a câmera. Pode ser que eles encrenquem comigo. Não sei o que aquele Tenente pode ter falado. A cena que estou vendo faz jus a música d'O Rappa.


Plano do corredor lateral da delegacia vazio. Camburão estacio- nado de ré. Policial abre a porta traseira e saem vários rapazes. Pretos a grande maioria.


Não fotografei de novo, que merda, essa poderia ser importante. Uns dez garotos saem do camburão e estão vindo em minha direção. O policial nos pede pra fazer uma fila, sou o quinto na ordem de chegada. Sento numa caixa de concreto. A galera parece já acos- tumada com a situação. “Perdendo o dia de trabalho por causa desses caras”. “Ainda bem que meu irmão conseguiu levar a nossa caixa de isopor”.

O policial civil me chama e pede pra ir à triagem. Outro civil me atende junto de um mano com cabelo encaracolado. Pergunta o nome dele. Não consigo entender bem. Ele fala baixo, parece envergonhado ou preocupado com a situação. O policial pergunta meu nome. Jefferson de Souza Vasconcelos. Me pergunta se tenho passagem. Tenho. Passei por uma situação parecida uns dois anos atrás. Qual vai ser a pena dessa vez? Vou aliviando enquanto ouço. “O processo vai ser parecido, talvez a pena seja um pouco mais pesada”. Uma mulher loira entra dizendo que o amigo que tava junto comigo seria enquadrado por tráfico, porque estava com dois pacotes fechados e ainda com adesivo da facção criminosa. Ele conta de forma quase desesperada que comprou no Acari e encontraria a namorada na praia. A delegada, deduzo o cargo dela devido o tratamento dos demais policiais, fica indiferente às palavras e se vai, sem falar. Pedem pra que voltemos pro pátio.

Quero estar num ponto de vista onde possa perceber o olhar dos policiais pra galera. Chego no ponto máximo do muro. Não vai ser maneiro ser enquadrado aqui. Tiro a parte da frente da capa e meço o ângulo aproximado da 50mm. Um tá anotando qualquer coisa na prancheta. O outro abaixa a cabeça pra olhar o zap.


Leitura da esquerda pra direita. Caíque e Carlos quase impercep- tíveis do lado de fora do prédio. Seguindo, um policial de cabeça baixa mexendo no celular. Outro policial de costas anotando algo na prancheta. Menino de camisa preta olhando pra câmera. Amigo de regata e cabelo encaracolado que foi enquadrado em tráfico, também olhando. Um terceiro, talvez fugindo da foto, de lado, com uma camiseta escrito apenas "carioca".


Sinto a galera agitada. Fico conversando. Tá de boa, mas acho que uma foto é suficiente pra essa situação. Não vou mais foto- grafar aqui. Uma imagem se foi mas não vou lamentar.

Chega o inspetor e me chama. Caminho até a mesa dele. "Vamos logo com isso. Tô voltando de uma escolta pra Bangu, cansado". “Foi droga?”. Foi. "Vão liberar isso jájá. Bom que a gente tem menos trabalho". "Qual teu endereço? É Jefferson, né?!". Isso. Moro na Maré. Rua São Jorge 7, na Baixa do Sapateiro. “Onde você comprou a droga?”. Perto de casa. Tempo de silêncio. "É a segunda vez que você é detido?". Isso. "O que acontece? Tô perguntando por que eu não tô sabendo mesmo". Da outra vez tive de comparecer a 40 reuniões dos N.A. (Narcóticos Anônimos). “Caraca!”. Mais um tempo de silêncio. O inspetor me diz que estou liberado.

Saio. Descrevo tudo que aconteceu pro Carlinho e Caíque entre uma Serra Malte e outra no Pavão Azul. “Jefferson!”. Um dos policiais me chamando, estranho. “Qual era mesmo o ônibus que você tava?”. 483. "Você pode me emprestar sua identidade? Não anotei.". Fico esperando o cana devolver minha identidade enquanto continuo bebendo. Ele me entrega. Sai um dos meninos que tava no corredor. “Ficaram me perguntando se eu tinha passa- gem”. “Pode botar os dez dedos lá que não vai achar nada”. “Eles não acharam o boldo, ficou aqui na bermuda”. Tu não salva a gente? Quer fechar na praia? Vamos ficar aqui no posto quatro mesmo. "Salvo sim! Mas vou aguardar os leks que ainda tão aí dentro. De repente a gente se encontra". “Aqui não dá pra te passar, muito explanado”. Só ir alí no fim da rua. Vamos andando até uns 50 metros de distância da delegacia. Valeu mano. Salvou grandão. “Demorô”. Deixa eu te adicionar no facebook. Te mando as fotos que eu fiz. "Ja é, só procurar Junior Salles, dois l ́s". Valeu sangue bom, vamo indo lá. Aparece pra dar um alô. Saímos andando eu, Caiquente e Carlin em direção a praia. É questão de honra dar esse mergulho. O mar em Copa é uma merda pra entrar, parece uma máquina de lavar. Chegamos na praia. Nem sei quanto tempo esse processo da dura levou, mas preciso me banhar de água salgada. Dou o mergulho. Dificuldade pra sair. Sempre tive dificuldade com mar mexido. Sentir as correntes puxando me dão aflição, confesso. Saio e proponho que fumemos o baseado salvo pelo Junior.


Retrato simples dos dois manos, Carlin e Caíque olhando pra mim. Desajeitado, como sempre, me equilibro com dificuldade pra dar distância no enquadramento.


Pedimos seda pra um grupo vizinho que salva. Fumamos e aquela coisa lembrando o que rolou e confabulando as conspirações por trás disso.

"E aí!". Fala mano. Que bom que vocês saíram de boa. "A gente tava sem nada. O flagrante tava com ele." "Vocês tem seda?" Nem. Essa galera aí que salvou a gente. "Já é. Vamo chegar ali pra frente". Deixa eu fazer um retrato antes? "Já é!". Rapidinho, deixa eu ajeitar aqui.


Os três amigos, Junior, Gotinha e o terceiro que não sei o nome mas achei parecido com o Rivaldo, com o mar e a pedra do Leme de fundo. É a chegada ao objetivo. O sol ainda presente e o beck sobreviveu a revista.


Tamo junto! Eu mando pra vocês pelo facebook mesmo. "Valeu mano!". Abraço.

“Não vá perto demais do Sol! Você pode perder suas asas.”

Photo: Jéferson (Gê) Vasconcelos

Photo: Jéferson (Gê) Vasconcelos