Parrafo magazine

O Terror e Os Entrelaces da Escrita de Santiago Nazaria

Gabriela Lopes

1. Suas obras sempre tiverem referências ao terror, principalmente ao cinema de terror, desde O Pânico no Lago à O Anti-Cristo do Lars Von Trier. No entanto, o que o levou a escrever um livro, como Neve Negra, classificado como terror (ou Pós-Terror)

Eu sempre me alimentei muito dessa cultura – trash ou não tão trash, desde o terror mais bagaceiro até terror psicológico; é o meu gênero, o que acho que tenho mais base para fazer. Por esse motivo, sempre procurei ir além, trazer outras referências – mais literárias -, a questão existencialista, os questionamentos, para não me acomodar no fácil, no raso. Então o terror esteve sempre lá como pano de fundo, mas não tinha sido abraçado como gênero de fato. Neve Negra foi a oportunidade de fazer isso; produto de uma encomenda da RT Features, produtora brasileira que tem no currículos filmes como o americano “A Bruxa”, entre vários outros. Eles queriam autores de literatura brasileira que pudessem trabalhar o terror com consistência. Assim foi a oportunidade de eu escrever um livro assumidamente de terror, já com um contrato por trás, uma grande editora (a Companhia das Letras). Foi algo que escrevi especificamente para essa encomenda – durante o 1 ano que tinha de prazo. E foi algo que gostei de fazer, que precisaria fazer em algum ponto, mas que acho que não teria feito agora. Eu teria buscado um desafio diferente porque, sinceramente, escrever Neve Negra foi bastante fácil e bastante próximo do que eu já estava fazendo.

2. O que faz Neve Negra ser um Pós-Terror? Qual a diferença entre Existencialismo Bizarro e Pós-Terror?

O pós-terror foi um presente que recebi do jornal The Guardian. Pouco antes de o livro ser lançado, eles fizeram uma matéria delineando essa tendência de filmes de terror mais profundos, que batizaram de pós-terror. E o rótulo veio na hora certa para definir o livro. É terror, mas com um “plus a mais”. A intenção não é apenas assustar, mas trazer questionamentos sociais e existenciais. Nesse ponto, o pós-terror e o existencialismo bizarro se sobrepõem. Mas o existencialismo bizarro é mais amplo - é esse questionamento existencialista aplicado não só ao terror, mas ao thriller, ao suspense, a qualquer gênero em que se encaixe o mórbido e o pop.

3. O seu trabalho foi transformado em peça, roteiro e você mesmo já trabalhou na série Passionais. Assim, gostaria que falasse um pouco da versão por vir de Neve Negra para o cinema e se isso influenciou na sua forma de escrita.

Eu costumo dizer que não. Como o livro já estava vendido para o cinema antes mesmo de eu começar, não me preocupei em torná-lo especialmente cinematográfico – ou vendável para o cinema. Mas talvez tenha havido uma influência inconsciente sim, ou talvez seja apenas o fato de que minhas maiores e melhores referências para o terror vêm do cinema. Então acho que o resultado é um livro cinematográfico, mas com pontos bem problemáticos para uma adaptação, com toda a sexualidade infantil, que eu não me preocupei em suavizar. O trabalho na série da Globosat e em outros roteiros que fiz que ainda não foram produzidos foram muito importantes para mim; além de me darem mais fluência nos diálogos, me fizeram exercitar outras formas de criação, o trabalho em equipe... como autor sozinho em casa a gente pode se tornar muito masturbatório, é preciso se impor desafios.Mas eu tenho três livros vendidos para o cinema, e mais uma dúzia de outras negociações que não andaram. Já passou o tempo em que eu acreditava que ter um livro vendido significava um filme ou que um filme significaria grande coisa. Se eu tenho um “projeto” em livro, eu sei que posso realizar, que dentro de dois, três anos a coisa sai, por uma editora grande, com boa repercussão. Fiz isso com nove livros. Agora, tudo em que dependo de outros criadores editais, equipe, etc, é tudo incerto. Eu gosto de criar sozinho. Me realizo assim e continuarei fazendo os livros porque sei que eles acontecem. O resto que vier é lucro.

4. Além disso, como é assistir uma outra versão de uma história sua em outra mídia

Bom, de livro meu, por enquanto, só tive Feriado de Mim Mesmo no teatro. E gostei muito do resultado. Tinha entregado para eles e só fui ver pronto: vi os cartazes com aqueles caras orgânicos, barbudos, e pensava – que porra é essa? Porque no meu mundo todos os rapazes são andróginos... Não era meu universo. Mas eles foram muito respeitosos com meu texto. E encenaram com a visão deles. Para mim foi fascinante ver meu texto se encaixando em outros olhos. Durante muito tempo fui muito protetor, ciumento, não queria entregar minha obra para ser adaptada por qualquer um. Hoje acho que quanto mais gente fizer, melhor.

5. Você fez uma grande turnê para divulgar Neve Negra, incluindo participações em Feiras Literárias, lives no Facebook e participação no programa da Arte1. Como é apresentar a si mesmo e o seu trabalho em ambientes de divulgação e legitimação da obra e do artista?

Foi uma sorte conseguir me encaixar em tantos eventos, porque está um ano bem complicado, de crise da economia e de boicote à cultura, que está sendo vista pelo neo-conservadorismo coió não só como uma coisa supérflua, mas uma coisa nociva. E esses eventos servem não apenas para eu divulgar o livro, mas para pagar as contas, porque a maioria tem cachê. Nos eventos de políticas públicas de incentivo à leitura, como os circuitos de bibliotecas que fiz pelo interior de São Paulo e Paraná, muitas vezes estou falando com gente que não conhece minha obra, às vezes com adultos que ainda estão sendo alfabetizados, então é preciso ter jogo de cintura e falar da literatura como algo maior, não apenas meus temas e meus livros. Felizmente já tenho quinze anos de estrada e bastante experiência. É um trabalho, às vezes complicado, mas recompensador.

Ah, valeu, querida. Eu que agradeço todo o prestígio. Me leva aí pra Los Angeles? ;