Parrafo magazine

ADVERSIDADES - - - CORPO - GLITCH - ESPAÇO

Daniel Gonzalez Xavier

A experiência de criação de um projeto artístico, tecnológico e interativo que fundamenta o erro como linguagem. Nos meios artísticos contemporâneos Glitch Art vem ganhando espaço como expressão estética cujas falhas sistêmicas e bugs são incorporadas as poéticas visuais propondo um contraponto crítico à estética da vida programada e condicionada pelas imagens preconizadas pela mídia e a indústria do consumo.

Em 2015 a plataforma de arte, ciência, tecnologia e sociedade: AVERSO ARTEMÍDIA em diálogo com o Sesc Santos desenvolveu um projeto dentro da programação: CorpoSubCorpo – Abjeções e Prazeres do Corpo. O seminário e festival partiu da premissa de que o corpo é mídia de si, na medida em que seleciona (racionalmente, sensorialmente, biologicamente) informações do ambiente, e os quais são literalmente encarnadas. Neste contexto, foi criada e desenvolvida a obra ADVERSIDADES --- CORPO - GLITCH - ESPAÇO que ocupou um espaço inativo e subterrâneo. Diante a um profundo regime de negociação, com práticas e conceitos do encontro performático, propôs-se alçar um processo reflexivo, empírico e imanente acerca da experiência do erro como expressão estética e poética, constituindo um ambiente artístico-tecnológico composto por um tríptico de instalações audiovisuais interativas de autoria do curador e artista interdisciplinar Daniel Gonzalez Xavier, do artista transmídia e performer Pedro Paulo Rocha e do arquiteto e programador Ricardo Palmieri. Se transversalmente CorpoSubCorpo buscou redirecionar o olhar para o (sub)mundo do corpo, permeado por discussões de gênero, a tecnologia, intervenções e transformações meta-corporais, ADVERSIDADES --- CORPO - GLITCH - ESPAÇO afirmou-se como uma instalação-máquina-organismo-sensorial apta a dialogar com múltiplos sujeitos ou reagentes configurando percursos experienciais em três níveis de fragmentação imagética.

- Neural-paisagens-glitch: Sujeito-participante vestia em sua cabeça um dispositivo leitor de ondas cerebrais que o possibilitava gerar paisagens visuais neurais em diversas formas e cores.

- Exo-audio-glitch: Ao incorporar aos membros superiores e inferiores sensores vestíveis o sujeito-participante gerava por meio de seus movimentos fraturas sonoras e visuais, cujos sons ósseos e musculares eram amplificados, digitalizados e inseridos no ambiente.

- Formas-corporais-glitch: Desafiava o participante a mimetizar silhuetas oriundas de movimentos artísticos de vanguarda, como a body-art, happennig, dança contemporânea e butoh, fazendo do corpo um password ao adentrar um labirinto audiovisual de micro-narrativas baseadas em situações de mobilidade, criação virtual e performance.

O regime tecno-estético proposto pela interpenetração desses três módulos foi estruturado na concepção do corpo como suporte de linguagem e nos preceitos da Glitch Art fundamentados na corrupção de dados e erros de transmissão de códigos não como fetichização do erro e sim como a materialização de abalos sistêmicos em um ambiente que funde a humanidade a máquina. O projeto também buscou diluir as diferenças entre Pure-Glitch e Glitch-Alike, categorias Glitch Art cunhadas pelo teórico Iman Moradi, sendo o Pure-Glitch resultado de um erro acidental e o Glitch-Alike conjuntos de artefatos digitais manipulados que se assemelham aos aspectos visuais de erros reais.

Daniel Gonzalez Xavier

Curador independente especializado em arte e tecnologia e projetos educativos multiplataforma. Formado em Comunicação Social pela FAAP de São Paulo, é mestre em Gestão Cultural pela Universidad Carlos III de Madrid. Fundador da plataforma AVERSO ARTEMÍDIA foi mediador cultural do Medialab-Prado de Madri(2005 – 2009); Diretor do projeto LudoTEca Ciudadaña desenvolvido em Pasto, Colômbia como parte Laboratório de Inovação Cidadã para a Paz e Pós-Conflito (2018) e curador do FILE - Hipersonica (Festival internacional de Linguagem electrónica, 2004 - 2005)