Parrafo magazine

A IMAGEM E A ESCRITA DA MEMÓRIA: UMA ENTREVISTA COM SONIA REGINA BISCHAIN

by Michelle Medrado &
Gabriela Lopes

Sonia Regina Bischain é uma pessoa de afetos e de trabalho. O seu afeto e labor aparecem na sua escrita e na sua fotografia, quando fala da necessidade de cultivar a memória, principalmente, a esquecida pela história contada por aqueles que sempre tiveram acesso aos métodos legítimos de fazê-lo. Bischain criou esses métodos por sua intensa conexão com a arte e com o Brasil. A artista retrata em suas obras o local em que vive, Vila Penteado, Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, tendo publicado o livro de fotografias Cultura Daqui, Olhares da Brasa (2015), juntamente com Avelino Regicida e Enver Padovezzi, assim como os livros: Rua de Trás (2009), Vale dos Atalhos (2013), Nem Tudo é Silêncio (2015) e Vidante, Labirintos Entressonhos (2017). Ela é fundadora e artista do Sarau da Brasa há 10 anos, agora no bar Goiabeiras, e trabalha com o DJ Mau Mau, o seu irmão. Sonia Bischain foi convidada a participar para falar do seu trabalho em Sorbonne, na França. Assim, Michelle Medrado e Gabriela Lopes a encontram e entrevistam Sonia Bischain para a Parrafo.

O Início da Trajetória

Sonia Bischain veio de uma família artística. Ela diz que seu pai era teatral, tinha ligações com a “coisa” do circo e queria ser palhaço, e por isso, “fazia teatrinho pra apresentar na pracinha nos eventos que a gente fazia e eu escrevia, eu escrevia as pecinhas”. Ela conta que, com isso, começa a escrever, talvez de forma mais constante e sistemática, na adolescência, a partir do ensino ginasial, porque lia muito, tendo como referência o Érico Veríssimo. Bischain descreve que durante o ensino médio, entre 1972 e 1974, envolveu-se com o pessoal da Igreja de Zinco, da Igreja Santo Antônio, e da Vila Penteado, na época de Dom Paulo, quinto arcebispo de São Paulo, quando a periferia da Zona Note ainda era considerada, como um todo, Freguesia do Ó, e a Brasilândia era só uma vila e ela morava na vila ao lado, a do Penteado. Com esse envolvimento, ela começou a fazer trabalhos culturais, como teatros de rua e festival de música. Ela justifica que esses projetos eram feitos pela própria comunidade, pois “morando aonde a gente morava, que é periferia, periferia da Freguesia, não tinha muitas opções de cultura, de lazer, então era a gente mesmo que fazia algumas coisas, com escola, de promover festival de música. E era uma época de ditadura, de 69 a 74, e eu estava com um pouco de consciência já e dentro de uma época que tudo era censurado”.

Em 1975, Sonia Bischain foi trabalhar com composição das páginas e digitação na Editora de Bolso da Abril, que tinha como objetivo criar livros de valor acessível para bancas de jornais. Na Editora, a artista teve que lidar com material censurado, e, por influência dos que trabalhavam com ela, interessou-se pela área de editoração, produção de desenhos, Tes Tape e Past up. “Aí eu aprendi a mexer com arte também. No início eu comecei, nas horas vagas, eu fazia jornalzinho de bairros”. Ela fala que digitava e produzia a arte dos panfletos e dos jornais, por exemplo, que eram distribuídos no Bairro e possuíam conteúdo cultural, político e educacional, como também, às vezes publicava os seus próprios poemas. “Aí depois me envolvi com movimentos políticos, no bairro, de reivindicações também de melhorias”. E com isso, Bischain passa a enfrentar a repressão, pois reivindicações sociais eram encaradas como subversão, contando que “o movimento regional tinha que ir lá na prefeitura pedir asfalto, pedir água, pedir luz, escola. E você era recebido com bombas... como é hoje também, nada mudou”.

Bischain conta que a ideia de escrever romances sempre estivera lá, mas, por conta das dificuldades da vida cotidiana, com o trabalho no boletim diário da bolsa de valores, na criação de apostilas de vestibular, a criação dos filhos, e a própria escassez de recursos, suas anotações acabaram na gaveta. Foi aí que veio o Sarau no início dos anos 2000. “Os amigos do Fernando e da Flávia, meus dois filhos mais velhos, frequentavam a minha casa porque estudavam juntos. Sabiam que eu lia muito, eu emprestava livros para eles. Esses amigos resolveram depois conhecer o grupo do Férrez lá no Capão, foram ver o sarau da Cooperifa e falaram ‘Ah! A gente sempre quis fazer um centro cultural, mas não tinha como fazer porque não tinha espaço. Não tinha uma área, né, mas um sarau dá’”. No Sarau, Bischain conta que começou a levar os seus poemas e com um projeto de verba da prefeitura aprovado, conseguiu publicar um livro de poesia com a Bárbara Lopes. E, nesse período de 10 anos, a artista conta que o Sarau já publicou 11 livros, inclusive seu primeiro livro individual, “Nem Tudo É Silêncio”.

O Registro da Memória

A arte de Sonia Bischain está ligada ao desejo de preservar a memória. A escritora diz: “Eu achava que tinha que contar uma história, daquilo que eu, eu queria colocar para frente, não ficar só comigo o que eu tinha visto” e, para ela, isto está ligado à consciência da história e de não perder a memória. “Eu acho que eu sempre achei importante porque quando você não conhece a sua história você repete erros, você fica estagnado, a ideia foi essa”. Bischain conta que, de acordo com a pesquisa da professora Regina Dalcastagnè, sua obra é pioneira em retratar a questão da Ditatura, principalmente, diferenciando-se por ser uma mulher falando da sua própria origem da periferia, ainda mais nesse contexto de opressão, transformando a realidade social e política em ficção.

A escritora fala então sobre a sua escrita de Vidante: “tem muita coisa real do Brasil inteiro, do Nordeste, Norte, São Paulo, mas aí eu fiquei em dúvida. Gente, eu faço isso? Porque tem muita coisa, de impeachment - de empreiteira, de índio no Amazônia, de seca no Nordeste, de ocupação de escola em São Paulo. E eu falei não, uma das minhas ideias era preservar a memória, vamos pôr. Aí criei lá uma família, um romance, uma outra coisa que não era da realidade”. Na criação do livro, Bischain salienta a preocupação com o uso de nomes fictícios, porque o seu livro tem sim um caráter da denúncia da história não contada, afinal ela diz que é a sua percepção das coisas: “eu jogo muito com a minha memória, de coisas mais antigas que eu lembro”. O nome do livro, por exemplo, se dá por rastrear as trajetórias pelo Brasil e pelo mundo de um viandeiro, um viajante e a sua luta para a sobrevivência da vida e da memória do Indígena, do Negro e do povo do Norte e do Nordeste. Sonia afirma que ela desejava registrar a luta das pessoas: “a ideia é simples, não silenciar. Não silenciar, porque até neste livro aqui o Paulo Thomaz escreve ‘nem todas silenciam’. E eu acho que é isso aqui, radical, se expressar num lugar de fala, mas é meio assim, também quero falar, mas incluindo as pessoas. Não a minha fala sozinha, isso não interessa”.

O Lugar de Fala

Perguntava sobre o lugar da sua literatura e da sua arte, descolado do circuito das grandes editoras e vinculado ao olhar com e para a periferia, Sonia Bischain responde que “a ideia sempre foi dar a voz da periferia”. Ela afirma: “você tem uma coisa que não é um estudo é uma vivência mesmo. E a gente sabe assim, que, quando nos incluem nos textos, outros acadêmicos, às vezes não tá refletindo a realidade mesmo dele. Mesmo a gente assim, por exemplo, você mora na periferia, perto da avenida principal e tal, do lado tem favela”. E para ela isso faz uma diferença na perspectiva já que “a maneira como você enxerga, a maneira como você vai falar isso é diferente de alguém que escreveu lá um livro, e fala da empregada que tá dentro da casa dele e que... E isso aconteceu e eu senti nas questões da periferia. Então, uma coisa é a pessoa tá lá pesquisando e outra coisa é tá lá, mas eu moro lá, eu conheço as pessoas, eu estou junto, eu passei por isso, eu vi, eu vivi. Ai eu achei que, que tem, isso foi uma coisa que virou a mesa”. E por isso ela afirma que não quer o distanciamento. “Eu quero tá dentro, eu quero sentir a dor deles, eu quero sentir... Eu não sei se talvez porque eu more perto, eu tenho contato, eu conheço. Então eu me sinto parte daquilo, eu me sinto um personagem”.

O fantástico da trajetória da Sonia Bischain é a forma como retira o estereótipo do que é viver na periferia, , já que ela vive esse espaço criativo. No entanto, Michelle problematiza o elitismo de alguns críticos e pesquisadores do espaço acadêmico que menosprezam a literatura com “sobrenome”, principalmente a literatura dita da periferia, como se o local diminuísse a produção artística. Bischain responde que a literatura é da periferia pela linguagem, citando positivamente a Carolina de Jesus, e como isso marca um lugar de fala, sem qualificar a cultura de cada lugar como melhor ou pior. “Acho que é um, eu acho que é sim porque de alguma maneira você está retratando e não só da Periferia porque as vezes envolve coisas históricas e políticas, é bem comum eu envolver e eu acho que é uma obrigação, não sei, eu enxergo assim que, um dos sentidos é que você se insira na realidade que você vive”. Perguntava se o termo a incomoda, Sonia diz: “Eu não me incomodo. Eu acho legal até. Tá dizendo onde a gente tá mesmo, né?”.

Sobre a Arte da Tela e as Novas Telas

A trajetória da artista com a fotografia e desenho também vem da construção de um espaço criativo. Sonia Bischain conta que gostava de trabalhar com pintura e nanquim desde pequena, assim como seu filho mais novo, o Yan, que é tatuador. Ela começou a fazer arte final quando foi trabalhar na Editora Abril, o que a levou a comprar uma máquina pessoal e trabalhar em gráficas como freelancer. Nas gráficas, “eles queriam fazer folheto, catálogo de pizza, algum produto que eles vendiam e aí me vinham com umas fotos horrorosas. Que era sem foco e eu falava ‘gente, assim não dá, né?’. E aí eu comecei, eu pensei em fazer um curso de fotografia. Nos anos 90, 95, 96. E fui fazer no Senac. E fui fazendo, sei lá, na época não tinha curso superior, era, aí eu fiz tudo que tinha de fotografia. Eu fiz laboratório e até moldura, montagem de foto, fotojornalismo, foto de eventos, estúdio, oficina de flash”. E continua: “. E aí, em 2008, eu fui parar no sarau da Brasa. Eu comecei a fotografar os eventos todos do sarau e daí também, quando eu vou eu algum movimento, alguma passeata, alguma manifestação, eu também levo a máquina...”

No entanto, as publicações da sua escrita com a sua fotografia mostram que o imaginário fotográfico não se perdeu. Bischain diz que, quando pensa em um livro, a imagem “é uma coisa que parece que já vem. Esse livro é uma foto minha. Todos eles são fotos minhas, mas o pessoal perguntou para mim, ‘Você nunca pensou em dar para alguém fazer a capa?’, mas gente, quando eu tenho ideia do nome eu já vejo a capa na minha cabeça. Às vezes ali eu não sei nem o que vem primeiro. Se é a imagem, se é o nome do livro e depois em cima disso, eu começo a escrever a história”. Ela também conta sobre o processo emotivo na feitura do livro na comunidade do Vista Alegre. Na exposição das fotos, as pessoas, porque nunca haviam se visto retratadas, chamavam as outras para finalmente se enxergarem. “Então eles ficaram tão felizes de estar nas fotos, as fotos que a gente expôs eram coloridas e essas do livro em preto e branco e aí eu falei: ‘gente, pra eles foi extremamente importante porque eles nunca se viram num livro e ficaram muito emocionados, muito”. Sonia Bischain conta como também ficou emocionada, naquele dia, e chorou.

Em relação as novas mídias sociais, ela critica a volatilidade da nuvem e o excesso de recurso. Antigamente, você tinha 24 ou 36 fotos, não podia perder nenhuma. “Então, você era obrigado a parar, estudar, entender como funcionava. E assim, essa facilidade hoje muitas vezes tira essa coisa do aperfeiçoar até”. No entanto, para ela, a internet beneficia a questão do compartilhamento da arte e da possibilidade de acesso. Para ela, “a arte ela tem que agregar todo mundo, ela não pode competir. Mesmo que você acha horrível ou coisa estranha, mas ela tem que te fazer pensar, e sentir alguma coisa, né? E ai você… e aí ela tá sendo arte, né? Uma coisa é você refletir, compartilhar e botar lá pra todo mundo ver”. A artista afirma que a arte, para ser efetiva, precisa circular. E continuo, para ser efetiva e afetiva, como é o trabalho de Sonia Bischain, a arte precisa circular.