Parrafo magazine

Interview: Esther Hamburger

by Michelle Medrado

Mi Medrado: Qual é a história do audiovisual no Brasil? Qual é o papel da televisão? Como pensar os estudos de mídia e a TV interativa em seu dialogo com as redes sociais?

Esther Hamburger – Vamos lá. O que que é o audiovisual no Brasil? Uma primeira pergunta, que poderia talvez englobar as outras. Pensando hoje na minha trajetória, de quem veio da antropologia e estudou a televisão e veio trabalhar num departamento de cinema e rádio tv, cada vez mais essa questão do audiovisual se tornou relevante. Quero dizer que é limitado o que você pode pensar em termos de meios de comunicação específicos. Se você levar em conta a relação entre eles, a pesquisa fica mais instigante e isso tá cada vez mais claro, nos estudos na área. As abordagens mais contemporâneas procuram entender as relações entre meios. O campo das imagens em movimento é um campo tradicionalmente do cinema. E o século XX é o século do cinema. E as transformações, que o mundo vem passando tem nas imagens em movimento, um assunto muito importante. Então, é um campo que de repente se viu no centro do pensamento. Ao mesmo tempo em que as mudanças tecnológicas levam a muitas transformações, no próprio campo, que se diversifica. A televisão surgiu em meados do século XX, embora tenha sido imaginada já a partir do fim do século XIX, como lembro em artigo publicado em português na revista do FORCINE, e originalmente em inglês no livro The 21st century film, tv and media school. Ao se aventurar nos primórdios da história da televisão, Erik Barnouw em seu estudo pioneiro Tube of plenty: the evolution of American television, menciona alguns experimentos usualmente associados à invenção do cinema, como os estudos de Eadweard Muybridge. Sobre os primórdios, Barnouw menciona a presença em 1879, em uma edição da revista britânica Push de um cartoon desenhado por George de Maurier de uma sala de visitas com uma tela em cima da lareira onde jovens jogam cricket. Dois fios um de cada lado da tela de formato retangular a ligam a pai e mãe, cada um sentado em sua poltrona. O desenhista denominou a traquitana imaginária “Edison’s Telephonoscope,” em associação a outras invenções do norte-americano envolvido com o cinema e o telefone. Toby Miller em livro Television studies: the basics bem mais recente que o volume de Barnouw, e situado nos estudos contemporâneos também menciona o mesmo cartoon. A imagem visionária permite a comunicação entre mães e filhos numa coisa meio intermediária entre o cinema e o telefone. É como um Skype no fim do século XIX a partir de uma tela plana instalada como uma pintura, numa residência burguesa: o pai e a mãe sentados em diagonal e falando com os filhos que aparecem numa tela em cima da lareira. A televisão foi imaginada junto a esse de invenções muito intenso. E foi revolucionando o olhar; Máquinas que sucessivamente permitiram a extensão do olhar prá além do corpo humano. Embora a televisão tenha sido imaginada durante o processo de invenção do rádio e do cinema, ela só vai ser testada nos anos 1930 em vários lugares do mundo inclusive no Brasil. Mas ela só se estabeleceu como meio acessível depois da II Guerra Mundial. Primeiro foi nos Estados Unidos, onde espalhou-se rapidamente entre as décadas de 1940 e 1950. O século XIX foi o século, das invenções e da imaginação moderna. Da imaginação do mundo utópico em que as máquinas contribuiriam para o bem-estar social e para consolidação das sociedades democráticas. E no século XX se viu que não era tão simples assim. Então, nesse sentido no pós-guerra o mundo já tinha perdido a ingenuidade em relação a esses meios técnicos. E, assim, a escola de Frankfurt que surge a partir dessa base na Alemanha onde esses meios foram usados de maneira bastante perversa, gera um pensamento crítico em que a indústria cultural é vista de maneira bastante negativa e associada ao capitalismo. Os pensadores associados a essa escola não pensavam se o regime era democrático ou não. Interessava se era capitalista ou não. A teoria crítica tem coisas interessantíssimas e muito visionárias na conceituação da indústria cultural. Embora tenha ficado na negatividade, incapaz de perceber as transformações que a própria indústria ajudou a gerar. Agora o que eu queria dizer sobre a televisão é que ela surgiu, enfim, ela se consolidou primeiro nos Estados Unidos no modelo de TV comercial. A chegada da televisão no país do cinema, Hollywood, do cinema industrial gerou um certo desconforto e a televisão foi logo acomodada em um determinado lugar. Eu acho que até recentemente a televisão americana tinha muito pouco interesse, uma coisa muito morna feita para não provocar, feita prá nivelar por baixo mesmo. E feita muito com a intenção de ser uma coisa mais doméstica e local do que internacional. Doméstica no sentido de interna ao país. Na Europa onde a televisão demorou mais prá se instalar, mais para os anos 60 e tal, ela surge numa estrutura de TV pública em alguns lugares ou estatal em outros.

MM – Você acha que a é a partir dessa aproximação que surge a TV brasileira?

Esther Hamburger– A TV brasileira é um híbrido. A TV brasileira surge muito cedo, ela surge em 1950. E surge associada a uma noção de modernidade, que se não era hegemônica era bastante forte, e que era uma noção meio despolitizada de modernidade, muito associada a tecnologia e com pouco desenvolvimento das dimensões políticas da modernidade, como as noções de direitos humanos oriundas da Revolução Francesa e suas bandeiras associadas a liberdade, fraternidade e igualdade.

MM – Por que que você acha que ela nasce despolitizada?

Esther Hamburger – Eu acho que tem a ver com a gente ser um país nas franjas do ocidental, como frisou Roberto da Matta no texto “The Brazilian Puzzle: Culture on the Borderlands of the Western World”. O Brazil é ocidental, mas ao mesmo tempo está aqui no Sul, e tem uma ânsia muito grande de ser ocidental e isso acaba resultando num fascínio pela tecnologia. Pensando no caso do Brasil, eu acho que a gente tem um fascínio pela tecnologia muito grande justamente por estar tão longe, a tecnologia permite que a gente se aproxime? As distâncias de alguma maneira diminuem. E a televisão em sua “época de ouro” acena justamente com essa possibilidade; hoje a internet oferece a possibilidade de interação. Não é à toa que a gente tem altos índices de uso de telefone celular, das mídias sociais. A cada novo meio a gente se supera na ânsia de integração. Como se o meio de comunicação pudesse compensar as disparidades sociais e geográficas.

MM – Você comentou que acabou de publicar um artigo sobre o futuro das escolas de cinema e televisão. Recentemente, vi uma ementa aqui na escola de cinema da UCLA que falava de screen studies (estudos de telas). Como é essa transição, qual é o futuro disso, o que muda?

Esther Hamburger- Essa é a discussão. E não é uma discussão elementar porque muita gente fala na morte do cinema e com isso vai se enterrar. É como se fosse começar do zero. Mas é uma discussão bastante profunda e complexa, e envolve muitos professores em áreas diferentes porque é um paradoxo se você for pensar que ao mesmo tempo que o pensamento nas humanidades reconhece a centralidade das imagens que até os anos 80 foram desconsideradas pela filosofia e pelas ciências sociais. Agora há o reconhecimento da centralidade das imagens na vida. Ao mesmo tempo em que o cinema é disciplina relativamente recente, já se vê diante do desafio posto pela ameaça de anacronismo. Qual o futuro desses cursos recentes?

MM – E os cursos acadêmicos?

Esther Hamburger - E se você pensar nas disciplinas acadêmicas, os estudos de cinema são muito recentes. Nos Estados Unidos, surgem dentro dos departamentos de Literatura. É uma disciplina relativamente recente que já se vê ameaçada porque ao mesmo tempo em que a importância do cinema e das imagens em movimento é reconhecida, o cinema enquanto meio que conhecemos hoje, tá diminuindo, em favor de outras formas de circulação de imagens e outras convenções narrativas. Para essa discussão, eu gosto muito da intervenção de Daniel Rodowick, hoje na Universidade de Chicago, com o seu livro “The Virtual Life of Film”. Verificamos que durante os últimos 100 anos em torno do cinema se desenvolveu um pensamento sobre as imagens em movimento, então, o objeto, enquanto tal, está em transformação, mas os conceitos que se consolidaram ao longo das décadas, no estudo dessa linguagem são úteis para se pensar essas transformações; A partir deles se pode estudar as formas emergentes. Então, o conceito de plano, o conceito de movimento de câmera, ou, decupagem, tudo isso está em transformação muito grande, porque com as câmeras em drones, por exemplo, os planos se alongaram...

MM – É o encontro com o digital?

Esther Hamburger - E com o digital, as memórias infinitas, enfim, essa unidade também já está em questão, mas é a partir dela, há um legado aí, que eu acho que fornece os instrumentos para se pensar as mídias digitais.

MM – é interessante pensar nisso, essa aproximação da linguagem, do conhecimento, a aproximação desse conhecimento com a prática. Coisas que aparentemente fomos educados a estar nesse mundo tão fragmentado nessas caixinhas parece que nesse processo temos que aprender, observar como isso se une nesse lugar.

Esther Hamburger – É. Como se relacionam, porque se a gente pensa a novela, você pode entender a novela de televisão como um programa proto-interativo. De alguma maneira ele anuncia as novas mídias. Porque, a novela, e ao mesmo tempo que ela tem esse grau de contemporaneidade ela é um desenvolvimento de um gênero literário do século XIX que é o folhetim do pé de página de jornal francês… Do folhetim à novela, ela a característica importantíssima que é a de ser feita ao mesmo tempo que vai ao ar. De novo eu acho que isso é importante para essa questão da moda, e de lançar moda, que você estuda. Sabe, que a novela durante os anos 1970 e 1980 mostrava o que de mais avançado tinha em termos de moda, principalmente as novelas que se passavam no contemporâneo. A novela apontou certos lugares como lugares modernos. O Rio de Janeiro é a cidade do futuro, aparece na novela como sinal de modernidade pela roupa, cenário, aparelhos, telefone, modelos de carro e como a novela é feita ao mesmo tempo que ela vai ao ar ela vai se atualizando sucessivamente infinitamente. Está sempre lançando os produtos mais recentes. Então, ela é como se fosse uma vitrine sucessivamente renovada.

MM – Como é que podemos pensar a interação dessas telas no cotidiano?

Esther – As telas já não são mais só para assistir, você fotografa, você envia. A tela ela não é mais simplesmente de exibição, não é mais só display. E acho que aí é que estão os desafios. Entender esse mundo de telas. Um mundo em que, a linguagem das imagens se multiplicou. E as pessoas que produzem e circulam imagens também se multiplicaram. E talvez seja possível pensar em imagens como referência de imagens.